O Peso do Nome: Diagnósticos Psicológicos, Rótulos e a Busca por Alívio

Vivemos um tempo em que cada desconforto psíquico parece exigir uma explicação imediata, um nome, um código.
“Tenho ansiedade?”
“É TDAH?”
“Será que sou borderline?”
“Me encaixo em qual transtorno?”

A busca por um diagnóstico se tornou, para muitas pessoas, uma espécie de obsessão silenciosa. Como se colocar um nome no sofrimento fosse a única forma de validá-lo, justificá-lo — ou até, paradoxalmente, eliminá-lo.

Mas o que está por trás desse desespero por um nome?
E o que acontece depois que esse nome chega?

Em um mundo hiperacelerado, autocentrado e cada vez mais exigente, sofrer em silêncio parece não bastar.
As pessoas querem uma resposta objetiva, médica, científica. Querem colocar o sofrimento em uma caixinha com rótulo, carimbo e receita. Querem dizer:

“Ah, é por isso que estou assim.”

E não é difícil entender o apelo disso.
O diagnóstico, quando bem conduzido, pode ser um ponto de partida útil. Ele pode oferecer:

  • Acesso a tratamento especializado
  • Reconhecimento social e jurídico
  • Possibilidade de reembolso por planos de saúde
  • Alívio subjetivo ao perceber que “não é loucura”

Mas, quando o diagnóstico se torna um fim em si mesmo, e não um começo, ele pode se tornar uma prisão simbólica.

Na abordagem da ACT, usamos o termo fusão cognitiva para descrever o processo em que a pessoa se torna aquilo que pensa.

“Sou um fracasso.”
“Sou ansioso.”
“Sou depressivo.”

Agora imagine esse mecanismo aplicado a um rótulo diagnóstico.

“Sou borderline.”
“Sou bipolar.”
“Sou autista, por isso não consigo.”

Não se trata de negar a existência de transtornos reais, nem de deslegitimar diagnósticos baseados em critérios científicos. Mas sim de questionar o uso da linguagem como prisão — quando o diagnóstico deixa de ser uma descrição funcional e se torna uma identidade imutável.

A ACT propõe um deslocamento:
Você não é o diagnóstico. Você é a pessoa que está observando essa experiência.
E essa diferença muda tudo.

Há quem se apegue ao diagnóstico como forma de explicar tudo — e, com isso, evita experimentar a vida além do sintoma.

“Eu tenho TDAH, então não consigo terminar nada.”
“Tenho ansiedade, então não posso fazer isso.”

Essa fusão entre identidade e diagnóstico pode:

  • Reduzir a autonomia da pessoa
  • Impedir o desenvolvimento de novas habilidades
  • Alimentar a evitação experiencial, que a ACT aponta como uma das principais fontes de sofrimento psicológico

Mais do que nomear, é preciso ajudar o paciente a se mover, com ou sem rótulo.

Com o aumento de conteúdo sobre saúde mental nas redes sociais, surgem também os riscos da autodiagnose ou do diagnóstico precoce feito com pouca escuta e muita pressa.

  • Sintomas passageiros são rotulados como transtornos crônicos
  • Adolescentes são medicalizados antes de serem escutados
  • Crianças inquietas são enquadradas como “TDAH” sem olhar para o contexto escolar, familiar, cultural

A ACT nos ensina a olhar para a função do comportamento, e não apenas para a forma.
Antes de rotular um comportamento como patológico, precisamos perguntar:

“O que essa pessoa está tentando evitar ou proteger com esse comportamento?”
“O que está em jogo aqui que ainda não foi dito?”
“Isso está impedindo ou promovendo a vida que ela quer viver?”

A ACT não se opõe ao diagnóstico. Ela o contextualiza.
Na prática clínica, o diagnóstico pode ser um ponto de partida — mas nunca é o mapa completo.

Mais importante do que saber se a pessoa “tem depressão” é entender:

  • Como ela se relaciona com seus pensamentos e emoções?
  • O que ela está evitando?
  • O que ainda é importante para ela?
  • O que está impedindo essa pessoa de agir com liberdade e sentido?

A ACT oferece uma estrutura processual, e não categorial. Foca na flexibilidade psicológica, na aceitação da dor inevitável, e na ação comprometida com os valores pessoais, independentemente de diagnóstico.

Você é mais do que o seu diagnóstico.
Você é mais do que o seu sintoma.
Você é alguém em movimento — mesmo quando está parado.
Alguém em construção — mesmo quando está desmoronando por dentro.

A psicoterapia, especialmente sob a lente da ACT, é o espaço onde o rótulo não é o fim. É apenas um ponto no caminho.
O que importa é: para onde você quer ir a partir daqui?

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